Pato Fu revela nuances do “Música de Brinquedo” às vésperas de completar 30 anos de história


PicniK Festival terá shows especiais do Pato Fu no formato tradicional e apresentando o Música de Brinquedo.

Às vésperas de completar 30 anos de umas das trajetórias mais coesas, divertidas e porque não dizer, fofas da música brasileira, o Pato Fu embarca neste fim de semana para duas apresentações em Brasília.

Sendo uma delas apresentando o icônico, e criativo, Música de Brinquedo, dentro da programação do PicniK Festival (confira como foi nossa cobertura in loco em 2018) que retorna após 3 anos em edição especial de 10 anos com apresentação ao longo de seus dois dias de programação de nomes como Ava Rocha e Lee Ranaldo (Sonic Youth), Yonatan Gat, Anelis Assumpção e Curumin, Luedji Luna, Letrux, Academia da Berlinda, Karina Buhr, Rogério Skylab, Gui Held e BIKE, OZU, OXY, e YMA. Apenas para citar alguns nomes que se apresentam no festival candango que caprichosamente se instala em um picadeiro localizado neste ano na Praça Portugal.

Os Patos ainda realizam um show no formato tradicional comemorativo dos 30 anos no dia 25 (garanta seu ingresso).

Conversamos com a Fernanda Takai e o John Ulhoa (leia entrevista) em uma entrevista longa no melhor estilo Pato Fu de ser para saber mais sobre os dois volumes do Música de Brinquedo, curiosidades dos bastidores e (tentar) revelar ainda mais detalhes sobre os preparativos para as comemorações dos 30 anos da banda.

Ouça a Coletânea O Mundo Ainda Não Está Pronto, projeto do Hits Perdidos + Crush em Hi-Fi homenageando os 25 anos do grupo mineiro


O Pato Fu completa 30 anos em 2022 e prepara uma série de surpresas para os fãs. – Foto Por: clickestudio

Entrevista: Pato Fu 30 anos

A qualidade musical, o faça você mesmo e o capricho na produção sempre foi uma das maiores marcas do Pato Fu. Inclusive em uma entrevista que pude assistir a Fernanda comentou justamente sobre como no exterior se impressionam quando vocês revelam que a maioria das gravações acontece no estúdio caseiro 128 Japs, mas claro que isso foi um processo de aprendizado de produção ao longo de muitos anos. Gostaria de saber mais do John como foi esse processo, quais os maiores desafios que encontrou pelo caminho, como isso acaba facilitando no dia-a-dia da banda e como trabalhar com outros artistas foi ajudando no desenvolvimento.

John Ulhoa: “Todo esse processo de me tornar um produtor – especialmente de minha própria banda, mas também de outros artistas – foi na verdade bem prazeiroso e instintivo. Fui acumulando conhecimento e equipamento desde minhas primeiras bandas, nos anos 80. Sempre fui o cara que lia os manuais e aprendia a mexer nos eletrônicos que apareciam.

Acho que uma grande virada se deu com a chegada da tecnologia que nos permitiu montar pequenos estúdios baseados no computador. Isso combina perfeitamente comigo, sorte minha! Não tenho fetiche por grandes equipamentos vintage, amplificadores valvulados, essas coisas. Gosto dos plugins. É provável que hoje em dia o computador seja o “instrumento” que melhor toco. Isso realmente ajuda demais a banda a ser auto-suficiente. A cada artista que produzo, aprendo um pouco mais, descubro novas sonoridades possíveis.”

O quanto aquela apresentação em uma loja de brinquedos, em que gravaram Mamã Papá, para o projeto Música de Bolso, do Marcus Preto e companhia, influenciou o Música de Brinquedo? Vocês apadrinharam o Música de Bolso, né?

Fernanda Takai: “Desde 1995 a gente já tinha em mente fazer algo com brinquedos um dia. Quando surgiu a oportunidade de fazer o Música de Bolso tínhamos algumas coisinhas guardadas e gostamos muito do resultado. Foi um mini-laboratório para as gravações que fizemos em 2009.”



O espetáculo do Música de Brinquedo já está há 12 anos em cartaz e também tem uma faceta interessante que é justamente seu lado artesanal. Como foi o processo de pesquisa e aprendizado na descoberta dos brinquedos que poderiam chegar próximos da sonoridade que gostariam de extrair? Chegaram a procurar brinquedos em viagens ou de formas não ortodoxas? Como foi o período de confecção dos arranjos?

Fernanda Takai: “Em toda viagem a gente ia visitar feirinha de artesanato, lojinha de aeroporto, loja de brinquedos em shoppings, olhávamos sites da internet… fomos juntando um monte de coisas sem nem mesmo saber se íamos usar. Quando as músicas foram escolhidas, a gente tirava tudo das gavetas pra ver o que podia emular os sons dos arranjos originais. Tentativa e erro. Alguns davam muito certo, outros não chegavam nem perto. Deu muito trabalho mas o resultado valeu a pena.”

Além de buscar um show incrível com estes instrumentos de brinquedo que desafinam constantemente, como vocês mesmos contam nos shows, qual foi o maior desafio de criar o Música de Brinquedo?

Fernanda Takai: “As pilhas e baterias acabam muito rápido, alguns se quebram e não tem conserto ou mesmo não são encontrados de novo pra reposição. Trabalhamos sempre com a possibilidade de ter que substituir os instrumentos de última hora.

Além disso, todo o som é meio desafinado, só que coletivamente soa muito bem. O desafio é dominar a escala pequena dos brinquedos e miniaturas. Não é porque você sabe tocar “Palco” do Gilberto Gil no violão ou piano que vai sair tocando naturalmente. Tem que se dedicar.”

Por mais que seja um disco para adultos, para vocês, como é sentir essa conexão gerada entre pais e filhos que o espetáculo permite? Vocês tentaram trazer um pouco da experiência como pais para o desenvolvimento, algo que já relataram em outros momentos. Mas como foi isso? Quais experiências pessoais despertaram essa vontade de desenvolver uma narrativa tão carinhosa e lúdica?

Fernanda Takai: “A gente queria que fosse divertido para todas as idades. Se a pessoa tá com criança ou não. Apresentar um repertório pop para os pequenos também nos interessava num mundo que se divide muito em compartimentos.

A gente escutou muita coisa que não era pra criança, ouvíamos juntos com a família toda. Hoje cada um fica com seu fone, numa escuta solitária e restrita na maior parte das vezes. É bom ver os sorrisos de todos na plateia. E ainda tem o Giramundo na linguagem universal dos bonecos, tornando tudo mais interessante.”

Ter as vozes das crianças em trechos dos discos é um detalhe à parte, mas nem sempre é tão fácil assim conseguir o melhor take, como funcionou para vocês esse momento em estúdio? (risos).

Fernanda Takai: “As crianças brincaram de gravar. Então mais legal que uma voz afinadíssima, é a voz que passa um momento de diversão, bem espontâneo. Foi tudo muito rápido, pois se ficasse cansativo, a gente não teria o envolvimento delas dessa forma mais leve.”


Pato Fu apresentando o show especial do Música de Brinquedo.
Pato Fu apresentando o show especial temático do “Música de Brinquedo”.

A Nina cresceu, imagino que já esteja bem distante da menina que gravou os takes para o disco, mas tem outra criança criativa na família, né? O João Chapman já participou ou vai participar de algum show junto com o Koctus?

Fernanda Takai: “Nina hoje está cursando na UFMG, ela gosta mais da parte visual. O João tem feito vários vídeos com o Ricardo e tem tocado muito o baixo. É uma criança muito musical. Mas participar dos shows é a parte mais séria, pois tem que viajar, passar som, dar entrevista… uma exposição que não quisemos para as crianças dos dois discos. Ter os monstros do Giramundo como backing vocals vem pra manter as crianças na escola, com seus horários bem certinhos.”

Além de termos os simpáticos bonecos do Grupo Giramundo no show Música de Brinquedo, vocês ainda trabalharam juntos na maravilhosa peça Aventuras de Alice no País das Maravilhas. Como surgiu a parceria com o Giramundo e existem projetos futuros do Pato Fu com eles?

Fernanda Takai: “Aventuras de Alice pode ser reencenada a qualquer época, é um espetáculo atemporal e muito plural em termos de sons e técnicas. Desde o primeiro show de lançamento de disco, tivemos a participação do Giramundo. Ficamos amigos e sempre pensamos em coisas pra fazer juntos. Temos um outro projeto audio-visual em fase de produção, em breve poderemos dar mais detalhes.”

Em 2017 vocês lançaram um segundo volume do Música de Brinquedo com novas versões, como foi revisitar o processo, descobrir outros brinquedos e quais regravações mais curtiram reinventar? Teve algum instrumento de brinquedo que queriam muito colocar mas por algum motivo ou outro acabou ficando de fora? Falem um pouco sobre a opção, principalmente no Música de Brinquedo 2, de ter uma grande diversidade de estilos musicais no mesmo disco. Vocês buscaram mesmo fugir de um único segmento neste projeto?

Fernanda Takai: “O MDB2 é mais ousado em termos de repertório. Tem Raimundos, tem música de duplo sentido do Genival Lacerda… acho que são figuras muito presentes pra gente. Usamos tudo que acumulamos com o MDB pra fazer os arranjos, já dominávamos mais a técnica, novos instrumentos entraram, outros se foram. Nada traumático.

As vozes no segundo disco foram de filhos de fãs e amigos, pois os nossos cantores mirins do anterior já eram adolescentes. Acho que em termos de diversidade das canções dialoga bem com o primeiro que tinha Zé Ramalho, Pizzicato Five, Ritchie…”.

O Paul McCartney já deu algum sinal sobre ter ouvido LIVE AND LET DIE?

Fernanda Takai: “Ainda não. Tá demorando, né? Mandei recado pelo Marcos Pinheiro, do Cult 22. Acho que agora vai! He he.”

Falando em versões, em 2017 lançamos o tributo para vocês e já faz 5 anos deste momento. Na época vocês completavam 25 anos de trajetória e agora estão no ano dos 30 anos, planejam algo especial para as comemorações?

Fernanda Takai: “Várias coisas, mas algumas não podemos revelar de todo. Já temos canções novas, uma série de shows especiais, o novo projeto audio-visual com o Giramundo… aos poucos vocês vão descobrir. Como o tempo passa rápido! Quando nos contaram do tributo, ficamos em choque. Quem seriam essas pessoas malucas? Mas foi tão bacana ouvir cada uma das faixas… obrigada mais uma vez.”



O John contou uma vez que uma tirinha de Zippy The Pinhead deu a inspiração para escrever YOU HAVE TO OUTGROW ROCK’N’ROLL. A Laerte já fez arte e dirigiu clipe de vocês. Quem são os quadrinistas que inspiram o Pato Fu e quais vocês indicariam para os fãs e para os filhos dos fãs da banda hoje?

John Ulhoa: “Já li muito quadrinho. Os autores da Mad como o Al Jaffee, Don Martin, AragonésRobert Crumb, Bill Waterson de “Calvin e Haroldo”, a lista é longa… Sem falar nos brasileiros, especialmente o Henfil, a Laerte, Jaguar e o pessoal do Pasquim, Angeli, Glauco e por aí vai…”



E para as futuras gerações, além do Hipoglós, no Merthiolate e do Sonrisal, o que indicam como cura para todo o mal?

Fernanda Takai: “Neosaldina, álcool em gel e máscara.”

Para cada um de vocês quais as faixas e discos que mais se conectam e/ou tem orgulho de ter colocado no mundo?

Fernanda Takai: “Meu preferido todos sabem: Ruído Rosa. Mas acho que todos foram importantes na construção de nossa história musical. Cada um deles é uma polaroid daquele nosso momento.”

Como é para vocês observar hoje a timeline da história do Patos? Dos projetos anteriores passando pela época de estar ousadamente no casting da Cogumelo Records, era de ouro da MTV, turnês para o exterior, vivenciar a época de estar em grandes gravadoras, tocar no Rock In Rio e depois voltar ao independente, se envolver com outros projetos…

Fernanda Takai: “Acho que temos uma história bem coerente com o som que fazemos. Há momentos bem pop e outros bem indie. O mais importante foi passar por tudo isso respeitando uma democracia interna nossa. Escolhemos juntos esses caminhos e acho que conseguimos ter uma qualidade sonora cada vez maior tanto em estúdio quanto ao vivo.”



Como enxergam os tentáculos da indústria musical em nossos dias? Tanto a forma de consumo, como a ânsia do apelo pela presença constante nas redes sociais e a forma de promoção da música?

Fernanda Takai: “Acho que às vezes nos sentimos velhos, outras não… já fomos vanguarda na internet lá atrás. Hoje se trabalha muito através das redes sociais, mantendo viva uma ideia ou lançando outras novas.

Essa presença digital é importante mas não pode ocupar toda a nossa existência. Viver de forma mais reservada ainda é válido, então buscamos um equilíbrio. O certo é que nada substitui o momento ao vivo!”

Como tem sido o reencontro com os festivais neste “pós-pandemia”? E como vai ser para vocês tocar os volumes do Música de Brinquedo em um dos palcos mais propícios para isso: dentro de um picadeiro, algo que o Picnik proporciona em sua estrutura.

Fernanda Takai: “Essa dobradinha numa mesma cidade do show em formato normal e o de brinquedo em sequência, é inédito. Acho que muitos fãs sonham com isso e Brasília vai ter essa chance. Espero que os dois shows sejam uma grande celebração dessa banda improvável que é o Pato Fu. Temos o Xande Tamietti de volta e só isso já está sendo incrível pra banda e pro público. Estamos felizes por participar do Picnik pela primeira vez!”

Nota do Editor:
Fica aqui um agradecimento especial ao Pato Fã Fabio Shiraga que contribuiu com uma série de perguntas enviadas para a entrevista.

Serviço

PicniK *Festival*

Arte – Moda – Música – Dia – Bazar – Festa – Sorrisos – Comidinhas – De graça

25 & 26 de junho de 2022 (sab e dom) | a partir das 13h @ Praça Portugal (prox emb EUA)

Obs: a partir das 16h, é necessário 1kg de alimento.
Instituição beneficiada: Mesa Brasil.

Pato Fu | Música de Brinquedo . Luedji Luna . Letrux

Medicine Singers + Yonatan Gat + Convidados Especiais. Ava Rocha e Lee Ranaldo

Anelis Assumpção + Curumin .  Academia da Berlinda . Karina Buhr

Rogério Skylab . Bike + Gui Held. Dessa Ferreira e Ìdòwú Akínrúlí

Puro Suco . Akhi Huna . Maria e o Vento .  Aguaceiro . Pedro Aleex

Yma . Oxy . Ozu .  Amnesiac Kid .  Cachalote Fuzz

Aurora Vênus . Corujones . Moscoles . Pratanes . Cientista Perdido . Os Gatunos



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