GORDURATRNS – ZERA | FLOGA-SE


Às vezes, o shoegaze, esse estilo tão maltratado ultimamente (coloque alguns anos aí) pelas bandas, crítica e ouvintes (que meio que perderam a paciência), nos dá uma surpresa. “Zera”, terceiro disco do Gorduratrans, é uma surpresa boa.

Pra começar, é curto, o que nos dias de hoje é uma vantagem (o que torna artista que lança álbuns com quinze, vinte músicas, um tanto “ousado”). Mas ser curto por si é bobagem. Ao final de “Zera”, o ouvinte acaba pedindo mais. E vai direto ao repeteco. Porque é um bom disco quase de cabo a rabo às primeiras audições.

Tire da jogada “Enterro Dos Ossos”, canção já divulgada previamente e que é um dos poucos shoegaze-emo-chiclete que você vai ouvir na vida (se não contar o primeiro disco barulhento do Jesus & Mary Chain) e que por si só já vale a empreitada aqui. E tire também a dedilhada e sonolenta “Nem Sempre Foi Assim” e temos um álbum cheio de detalhes divertidos, músicas divertidas (pop mesmo!), letras divertidas, clichês divertidos.

Ou vá direto a “Arão”, quando o shoegaze fala de futebol – e enaltece o jogador sempre criticado, símbolo do vitorioso Flamengo atual. Quer um trecho mais divertido do que esse? “”Há de chegar talvez o dia / em que o Flamengo não precisará de jogadores, nem de técnicos, nem de nada / Bastará à camisa, aberta no arco / E diante do furor impotente do adversário, a camisa rubro-negra será uma bastilha inexpugnável”. Jorge Ben já deve estar pensando numa versão só sua.

Os “Alquimistas” do Gorduratrans são mais tristes – “faz um tempo / que sem teu olhar não sei viver / tudo de novo por você… / outra vez / me sinto mais forte / quando vejo você / dando nó em pingo d’água” – mas a guitarra circular e cortante, com a bateria aprazivelmente indecisa garantem a diversão, bem como a simplicidade batuqueira de “Jaco” – “oh lá, que vem do alto / oh lá, e vem do alto / pra ver e crer” – e a poeticamente barulhenta “Caveira”.

“Zera” chega cinco anos depois do ótimo “Paroxismos”, de 2017 (leia e ouça aqui), mostrando que o Gorduratrans já acumulou gordura (não resisti) suficiente pra perambular por feitvais aí fora, se os festivais aí fora soubessem o caldo que essa banda dá. Mas não, o mundo não é nada perfeito – “no Rio não tem canção, tem bico”, como eles mesmos cantam (em “Crista”).

As oito faixas de “Zera” foram produzidas por Roberto Kramer (que também mixou a obra) e Fernando Dotta (dono do selo Balaclava Records, espertíssimo por colocar o disco na roda). A masterização tem assinatura de Fernando Sanches e as gravações aconteceram no Estúdio El Rocha, em São Paulo, em setembro 2021.

Felipe Aguiar (guitarra e voz) e Luiz Felipe Marinho (bateria e voz) têm fome, sede, febre, sorte. Falta sua atenção e reverência.

1. Crista
2. Enterro Dos Ossos
3. Cortisol
4. Nem Sempre Foi Assim
5. Alquimistas
6. Arão
7. Jaco
8. Caveira

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